O capital mais escasso da Europa já não é financeiro. É humano.
A escassez de talento está a tornar-se um dos principais desafios ao crescimento económico europeu.
O crescimento económico enfrenta um novo limite
Durante décadas, acreditámos que o crescimento económico dependia sobretudo do investimento, da inovação e do acesso ao financiamento. Sempre que existiam estas condições, assumia-se que as empresas conseguiriam crescer, aumentar a produção e conquistar novos mercados. Hoje, essa equação tornou-se mais complexa. O investimento continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente quando não existem pessoas capazes de o transformar em resultados.
Esta realidade é bem ilustrada pelo estudo Job Market in the Era of AI: The Most Wanted Professionals in Europe in 2026, da BestBrokers, desenvolvido com base em dados do Eurostat, da EURES e do Eurofound. Entre abril de 2025 e março de 2026 foram anunciadas mais de 10 milhões de vagas de emprego na Europa, revelando uma procura por talento que continua a superar a oferta disponível em muitos mercados.
O dado mais interessante, contudo, não é o número de vagas. É o facto de algumas das economias mais fortes da Europa estarem a perder trabalhadores e, ao mesmo tempo, continuarem a procurar milhares de profissionais. A Alemanha é um exemplo claro desta realidade: registou uma diminuição da população empregada face ao ano anterior, mas continua a ter mais de 2,4 milhões de vagas por preencher. Os Países Baixos apresentam um cenário semelhante, combinando uma das taxas de emprego mais elevadas da Europa com um dos maiores volumes de oportunidades disponíveis.
Estes números mostram que o principal limite ao crescimento económico já não é, necessariamente, a falta de investimento. Em muitos casos, é simplesmente a dificuldade em encontrar pessoas.
A escassez de talento está a redefinir a competitividade
Esta transformação obriga-nos também a olhar para a competitividade de uma forma diferente. Durante muito tempo, a vantagem das organizações foi medida pela capacidade de investir, inovar ou ganhar escala. Hoje, começa a depender igualmente da capacidade de atrair e desenvolver talento.
Curiosamente, esta realidade também desafia algumas das narrativas mais repetidas sobre o futuro do trabalho. Apesar da atenção dada à Inteligência Artificial, os profissionais mais procurados continuam a ser técnicos especializados, operadores industriais, profissionais da logística, manutenção, transportes e saúde. São funções que continuam a sustentar o funcionamento diário da economia e cuja escassez representa um risco crescente para a produtividade das empresas.
A transformação tecnológica não elimina estas profissões; altera as competências necessárias para as desempenhar. Por essa razão, o desafio já não consiste apenas em recrutar mais pessoas, mas em garantir que existem profissionais preparados para responder a um contexto cada vez mais digital, automatizado e exigente.
A próxima vantagem competitiva será humana
Num contexto em que o talento qualificado é cada vez mais escasso, a capacidade de desenvolver pessoas tornar-se-á um dos principais fatores de competitividade das organizações. O investimento continuará a ser essencial, tal como a tecnologia continuará a transformar os modelos de negócio. No entanto, nenhuma destas variáveis produzirá impacto sem profissionais capazes de as colocar em prática.
Mais do que uma tendência conjuntural, estamos perante uma mudança estrutural. O recurso mais escasso das organizações deixou de ser apenas o capital financeiro. Passou a ser o capital humano.

Thomas Marra
Country Manager da Gi Group Holding Portugal