Portugal na cadeia de valor do setor automóvel
Durante décadas, a competitividade da indústria automóvel mediu-se pela capacidade produtiva, pela eficiência das fábricas e pelos custos de operação. Hoje, a equação é diferente. A próxima geração da indústria automóvel será menos determinada pela capacidade de produzir e cada vez mais pela capacidade de desenvolver conhecimento, inovação e talento.
A verdade é que a eletrificação, o desenvolvimento de software, a inteligência artificial e a automação estão a transformar profundamente um dos setores mais relevantes da economia europeia. Mas mais do que uma mudança tecnológica, vivemos uma mudança de paradigma que ira definir quem será capaz de acompanhar a evolução do setor.
Portugal parte de uma posição favorável. O setor automóvel continua a ser um dos pilares da economia nacional. Com um volume de negócios superior a 42,6 mil milhões de euros, representa cerca de 4,1% do PIB e é responsável por aproximadamente 13% das exportações do país. Depois de um dos melhores anos de sempre no que diz respeito à produção automóvel, estão reunidas condições para reforçar a posição de Portugal na cadeia de valor europeia.
De notar que esta evolução está também a redefinir o emprego no setor industrial. Longe de significar um declínio do setor, a transição tecnológica está a criar novas oportunidades, mas também novas exigências. Cresce a procura por engenheiros especializados em sistemas eletrónicos, desenvolvimento de software, automação, análise de dados, cibersegurança e inteligência artificial, bem como por técnicos altamente qualificados para operar ambientes industriais cada vez mais digitalizados.
O verdadeiro desafio é que toda a Europa compete pelos mesmos perfis altamente qualificados. E isso obriga igualmente a uma necessidade de repensar o conceito de política industrial. Durante muitos anos, discutiram-se incentivos fiscais, custos energéticos, infraestruturas ou localização geográfica. Todos estes fatores continuam a ser relevantes. Mas nenhum será suficiente se Portugal não conseguir responder à crescente procura por competências altamente especializadas.
Hoje, mais do que nunca, o capital humano é um ativo estratégico. Acelerar programas de upskilling & reskilling, aproximar o ensino superior das necessidades da indústria e criar condições para atrair talento internacional tem de ser uma prioridade.
Nos últimos anos, Portugal consolidou uma posição relevante na cadeia de valor automóvel, atraindo investimento, desenvolvendo um tecido industrial robusto e afirmando-se como parceiro competitivo dos principais fabricantes e fornecedores internacionais. O desafio passa agora por subir na cadeia de valor: deixar de ser reconhecido apenas pela sua excelência produtiva para se afirmar como um polo europeu de engenharia, desenvolvimento tecnológico e inovação.

Tiago Pacheco
Senior Business Director T&p Onsite, Gi Group